terça-feira, 24 de setembro de 2013

Minha entrevista de emprego

Entrevistador: Como as pessoas te veem?

Eu: Ora, como eu poderia saber? Se você realmente deseja saber disso você deveria perguntar a elas e não a mim.

Entrevistador: Você tem tatuagem?

Eu: Sim. Mas qual é o motivo desta pergunta, discriminação mesmo? Pois como é que uma eventual tatuagem pode interferir na execução do meu trabalho? 

Entrevistador: Por que você está pleiteando esta vaga?

Eu: Não é um tanto quanto óbvia a resposta? Porque eu preciso de dinheiro para sobreviver, né?

Entrevistador: Defina-se em apenas uma palavra.

Eu: Ah, cara. O indivíduo é muito complexo, logo é uma tarefa impossível “definir” a si mesmo em uma mísera palavra.

Entrevistador: Diga um defeito seu.

Eu: Dizer “eu sou ansioso” não vale né? (risos leves) Esta é a resposta mais clichê nessas horas, pois do ponto de vista do mercado competitivo capitalista esta característica pode representar uma vantagem para o candidato, visto que subtende ao empregador que o funcionário trará “resultados rápidos”. E é exatamente isso o que toda empresa quer, não é? Um funcionário extremamente disciplinado, que obedeça roboticamente e aja o mais rápido possível sem fazer perguntas.

Entrevistador: Como você reage em situações difíceis?

Eu: Bem, eu tento manter o meu temperamento o mais calmo possível. O que mais eu poderia fazer, não é verdade?

Entrevistador: Agora, eu peço por gentileza que você responda ao teste que contém nessas folhas...

Eu: Putz cara! Eu me desloquei até aqui. Gastei dinheiro mesmo estando desempregado. Perdi um bom tempo até este momento. Apresentei-me aos demais candidatos. Diante deles ainda, narrei desde o meu nome até quais eram as minhas atribuições nas empresas pelas quais passei. O pior foi ter que ouvir a mesma ladainha dos demais candidatos, uma por uma. E ao fim de tudo isso, você me pede para eu realizar um exame? O que contém nele? Deixe-me adivinhar: É para provar que eu sei ler? Que eu sei matemática básica? O que mais?...

Entrevistador: Você terá 20 minutos contados a partir de agora para entregar o teste, bem como o gabarito.

Eu: Putz! Ainda tem que preencher aquele gabarito chato? Cara, na boa. Toma aqui o seu teste de volta e ofereça-o a outro imbecil. Pois eu sou socialista! Para mim, tudo isso aqui é uma palhaçada. E o que vocês denominam “dinâmicas de grupo” na verdade não passam de uma mendicância trabalhista. E digo mais, este sistema só ferra com a gente. Se eu estou aqui não é a passeio. O esforço que empreendi só pra chegar até aqui já deveria bastar para eu ganhar a minha função. Essa é a maior prova de que eu estou a fim de trabalhar, não é mesmo? Do contrário, eu sequer teria vindo.

E eles não me ligaram depois...

P.S: No socialismo não há desemprego. E por quê? Não há empresas privadas, tudo pertence ao coletivo. O Estado inteiro é formado por indivíduos trabalhadores. De modo que, não há tampouco divisão de classes. O capitalismo é tão ineficiente que está absolutamente dentro de sua normalidade que algumas pessoas trabalhem excessivamente, outras pouco, e outras nada. Já o socialismo é essencialmente equilibrado, uma vez que todos teriam direito ao trabalho, coisa que no capitalismo jamais é garantido com a ameaça do desemprego que a todo tempo sopra um ar gélido sobre nossas espinhas.